Sunday, October 17, 2004
O escuro
É rídiculo ter-se medo do escuro a certa altura da nossa vida. Há ainda outros medos que soam ridículos só de os entoarmos dentro de nós. Acende uma lanterna que seja dentro deste cheiro pesado a antigo e amanhã, garanto-te, poderás abrir uma janela e depois a porta. Quem sabe se mais tarde, não estarás a caminhar pelo jardim fora, pisando a erva muito verde, molhando os sapatos com o orvalho da madrugada. Até poderás reparar nas árvores plantadas por outros e desejar trincar uma maçã, ou um diospiro. Acho que saberás distingui-los, laranjas, no meio das cores outonais. Tu nunca gostaste muito do Outono, mas sei que gostas de diospiros e de romãs. Se vieres ter comigo, descasco-te os bagos vermelhos de uma romã vermelha e madura. Posso ver-te comê-los um a um. Ou então enchendo a palma da mão e depositar tudo na boca. O sumo rubi nos teus lábios. A verdade é que não sei como comerás a romã. A verdade é que não sei se acenderás a lanterna.